Ouvi mês passado uma frase que me comoveu. Determinada pessoa com confortável situação financeira, sem filhos e sem algo que se possa chamar de vida produtiva, pisando exclusivamente nas sombras do marido, disse que se tivesse um filho como “tal e tal” de fulana, o daria ou pagaria para alguém criar bem longe. Não a ouvi falando, isso me foi repassado. Não pensei nada, nem julguei o comentário, na hora fiquei estupefada com a coragem da que falou, porque até para se afirmar como ignorante ou estúpido alguma coragem é necessária. Agradeci em silêncio pela natureza não ter colocado vida alguma em suas mãos, e lamentei pelos muitos que são obrigados a conviver com gente desse tipo, progenitores ou não. Hoje cai bem ao meu pensamento do dia.
Uma criança quando vem ao mundo já vem carregada com a sina dos direitos e deveres. Tem implícito o dever de ter os olhos do pai, o nariz da mãe, a boca do avô que já está morto a uma década. Tem de ser bonito, mas se não for, enquanto neném todos falarão que é muito fofo, que tem saúde, depois que cresce tem por dever ser o fardo dos pais. Tem que se adequar às regras, falar na hora certa, andar na hora certa, dizer que ama o papai e a mamãe, aceitar os beijos, abraços e frases bestiais de pessoas aleatórias, ainda que não queira, senão, por obrigação, tem alguma síndrome, senão, por obrigação, não se adequa a sociedade. Um pequeno ser não é amado simplesmente por existir, simplesmente por vir ao mundo. É a duras penas que se crava um caminho quando se difere em algo. Depois de reconhecido o talento em uma área específica, quando vira um Mozart, um Einstein, uma Virginia Woolf, uma Clarice Lispector, aí tudo bem, ta explicado, era um gênio. No sonho médio, no senso comum, na vida mais ou menos, não se permite nuances diferentes, não sem preconceito e esculacho. A mediocridade ama apontar alguém julgado mais medíocre.
Elevando ao mérito de mártir, os que lutam por trás de pequenos com pequenas diferenças. Como se necessário fosse, pra quem luta por qualquer bandeira pessoal, usando o caráter como motivo, alguma celebração, além do próprio ato de amor. E caso necessite não o fez por sentimento algum, talvez por cobiça, coisa que geralmente não é agradável.
Todo o cidadão tem seus direitos e deveres. Toda criança e adolescente tem seus direitos e deveres. Todo pai ou mãe tem seus direitos e deveres. Todo trabalhador tem seus direitos e deveres. Todo governante tem seus direitos e deveres. Não há nada mais difícil de controlar, mais perigoso de conduzir, ou mais incerto no seu sucesso, do que liderar a introdução de uma nova ordem, disse Maquiavel, lá por 1500. O novo desorienta, amedronta, acovarda. Criar rupturas nas regras, isso sim, é uma possibilidade bem aceitável, ninguém liga de ver. Nelson Mandela foi uma figura notável, das mais reverenciáveis do século XX, líder tolerante na transição de uma nação marcada pela apartheid. Deixou um dever ao seu sucessor, Mbeki,que nada mais foi que um paranóico que impediu a entrega de medicamentos ao seu povo doente com Aids. Quem assume agora? Um presidente com dezesseis processos por corrupção e uma absolvição por estupro assumido. A Finlândia é o país com melhor sistema educacional do mundo, que possui excelentes programas psicológicos para seus estudantes.O país cumpriu um dever, mas em menos de um ano, dois alunos abusaram dos seus direitos e assassinaram em massa vários colegas em suas escolas.
O nosso talentoso diretor Fernando Meirelles, dirigiu um filme, o “Ensaio sobre a cegueira”, fiel a obra de seu criador, o escritor José Saramago, coisa que o escritor não permite a qualquer um, o direito de transformar seus livros em adaptações no cinema. Pois bem, agora nos Estados Unidos o filme sofre um boicote, pois acreditam que ao retratar os cegos de uma certa forma dita depravada, as taxas de desemprego entre os cegos, que já é de 70 %, vão aumentar ainda mais. Há alguns deveres e direitos que realmente estão sendo despeitados, mas do jeito que anda a economia por lá, seria mesmo o filme o culpado se isso viesse a ocorrer? Hugo Chávez vem fazendo o que bem quer no seu país, apoiado em seus direitos e deveres, e tem pateta que ainda o defenda. Rafael Correa expulsa a Odebrecht do Equador, seqüestra os bens da construtora e ameaça dar calote de 240 milhões no BNDES. Entra uma e outra coisa, o Brasil paga por ser um país em crescimento e aberto para o mundo.
Seja grande ou pequeno, o não cumprimento do direito e do dever gera uma ameaça. Mas isso é indiscutivelmente aceitável, o novo é que não é. Desde o pequeno ou grande indivíduo e personalidade, a falta de valores implica na coragem citada no começo do texto: coragem de se afirmar ignorante e estúpido. Sei que falo muito sobre o vazio que algumas pessoas possuem, mas é que eu gostaria mesmo que isso despertasse o mesmo sentimento em outrem, a mesma afronta e asco que me causam. Já que pessoas não mudam, apenas fingem se adequar, quem sabe se sentissem vergonha dos pensamentos medíocres que carregam, conseguissem guardar os mesmos para si, ao invés de disseminar por aí. Entre o pequeno e o grande delito, é que o passional passa a ser homicídio. É onde o direito se desvincula do dever, e alguns param de cuidar de suas miseráveis vidas para transformar outras vidas em miseráveis. E aí Pai, toda a ignorância será recompensada?